Para compreender o que seja mediunidade, segundo os parâmetros espíritas, precisamos fazer uma distinção entre dois significados diferentes para o termo médium: amplo e restrito.
O significado amplo talvez seja, no fundo, uma imprecisão lingüística... Contudo, Kardec nos explica (O Livro dos Médiuns, item 159) que:
“Todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos é, por esse fato, médium. Essa faculdade é inerente ao homem; não constitui, portanto, um privilégio exclusivo. Por isso mesmo, raras são as pessoas que dela não possuam alguns rudimentos. Pode, pois, dizer-se que todos são, mais ou menos, médiuns.”.
Este texto é freqüentemente utilizado por muitos adeptos para afirmar que TODAS as pessoas são médiuns. O problema é que param a citação por aí, não concluindo o restante do parágrafo. Mas, antes de passar a ele, vamos analisar o texto.
Podemos inferir três coisas no texto: a) A mediunidade se caracteriza pela percepção de uma influência espiritual; b) É inerente ao homem, isto é, não possui religião ou crença, está na espécie humana; c) Raras são as pessoas que não possuem pelo menos um pouco de mediunidade (logo, não se pode dizer que todo mundo o seja...).
Todos os seres humanos estão em constante inter-relação com os espíritos através da lei de relações fluídicas (A Gênese, capítulo XIV), de modo que todos recebem suas influências, boas ou ruins, conforme nossa pré-disposição, podemos ser inspirados, nossos pensamentos podem encontrar um eco no além, nossos intentos e pré-disposições podem ser intensificados, isto é, estamos o tempo todo influenciando e sendo influenciados.
Portanto, neste sentido, geral, amplo, todos são médiuns. Essa classificação, antes de tudo, é fruto de uma construção histórica dentro do próprio espiritualismo, antes mesmo do surgimento do Espiritismo (este provavelmente era o sentido popular de médium na época, assim como continua sendo o sentido popular, hoje em dia).
Agora, sim, vamos continuar com o texto:
“Todavia, usualmente, assim só se qualificam aqueles em quem a faculdade mediúnica se mostra bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade, o que então depende de uma organização mais ou menos sensitiva”.
Podemos inferir, que: a) Usualmente, isto é, na prática, não somos todos médiuns; b) O médium é alguém capaz de produzir efeitos patentes (claros), de certa intensidade (força); c) Para que isto ocorra, o corpo possui alguma coisa diferenciada (ou seja, é algo ligado ao corpo da pessoa, não evolução espiritual, como eventualmente se diz...).
Aqui vemos, portanto, uma definição restrita, específica, do que é ser médium. Quando falamos em médium, estamos evocando a imagem da pessoa que é capaz de estabelecer algum elo de comunicação ou efeito cuja ação seja proveniente de um espírito. Todos são capazes disso ou somente um número restrito de pessoas?
É justamente por esse conflito de definições (que não sei se foi por imprecisão de Kardec ou problema de tradução) que surgiram os termos: Mediunidade passiva e ostensiva. Isto é, o médium na definição geral e o médium na definição restrita. O médium passivo é aquele que apenas sofre a influência natural dos espíritos e o médium ostensivo é aquele que não só sofre a influência, como é capaz de produzir trabalho a partir dela (uma psicografia, por exemplo).
Não acho esses termos propriamente equivocados, mas estranhos. Prefiro pensar da seguinte forma: Quase todas as pessoas possuem mediunidade (como, em tese, todo ser humano possui a capacidade de falar), contudo, nem todos são médiuns (nem todas as pessoas cantam bem) e raros aqueles que são mediunatos* (como são raras as pessoas que cantam extraordinariamente bem).
Em suma? Todos têm mediunidade, mas nem todos são médiuns.
* - Pessoa com missão mediúnica
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